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segunda-feira, 16 de junho de 2014

pitaco #24 - eliane brum

Nome: Uma, Duas
Ano: 2011
De quem: Eliane Brum

Se hoje sou aspirante a jornalista, devo isso a Eliane Brum. A uma professora do ensino médio, a alguns amigos que sempre me disseram a correlação que minha personalidade e a profissão têm, a algumas matérias soltas, mas, sobretudo, Eliane Brum.

a foto é da Ju Gervason, d'O Batom de Clarice


Conheci Eliane lendo Época. Conheci Eliane relatando fatos, sendo sóbria, justa e fatídica. Eliane de "A menina quebrada" e outras colunas. Entretanto...

segunda-feira, 31 de março de 2014

a flor de maio, rubem braga

Transcrição de uma crônica que está no livro "Para Gostar de Ler - Volume 2"

A Flor de Maio

Entre tantas notícias do jornal - o crime do Sacopã, o disco voador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão, a angústia dos Barnabés - há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos os jornais publicaram.
Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta d’água, nem do Ministério da Guerra para insinuar que o país está em paz. Não conta incidentes de fronteira nem desastre de avião. É assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, e nos informa gravemente que a partir do dia 27 vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada "flor-de-maio" está, efetivamente, em flor.
Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa da redação e me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. Mas havia ainda muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar. Agora, já desce a noite, e as plantas em flor devem ser vistas pela manhã ou à tarde, quando há sol - ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no vento, e choram gotas e flores no chão.
Suspiro e digo comigo mesmo - que amanhã acordarei cedo e irei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi - um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam. Qualquer uma destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então será tarde, não haverá mais "flor-de-maio", e então pensarei que é preciso esperar a vinda de outro outono, e no outro outono posso estar em outra cidade em que não haja outono em maio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidade haverá essa "flor-de-maio".
No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém - uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples que tire desta crônica a sua única substância, a informação precisa e preciosa: do dia 27 em diante as "flores-de-maio" do Jardim Botânico estão gloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindo de casa e indo diretamente ao Jardim Botânico ver a "flor-de-maio" - talvez com a mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só.
Ir só, no fim da tarde, ver a "flor-de-maio"; aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões desgraçadas e tantas COFAPs de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica.




Rubem Braga morreu em 1990 em terras cariocas. Original do ES, foi um dos cronistas mais bem quistos da literatura brasileira. 


sexta-feira, 28 de março de 2014

pitaco #23 - fernanda young

ou Sobre O Livro que Prova que Ana Cristina Cesar Estava Certa Quando Disse Que Arte É Tudo Aquilo O Que Nos Tira Da Inércia.

Nome: Tudo que você não soube (ou O Livro Mais Triste do Mundo)
Ano: 2007
De quem: Fernanda Young

A lucidez é uma loucura. Quando você consegue olhar pra sua vida e enxergar onde você estava certo, onde podia ter feito outra coisa; quando você consegue olhar pro seu presente e falar o que precisa ser feito pra que as coisas deem certo; quando você sabe como magoar alguém e o faz porque esse alguém merece: esse tipo de lucidez enlouquece.


E a escritora do livro que está escrito em "Tudo que você não soube" é tão lúcida quanto somos todos. Mas a sua linha entre lucidez e loucura completa se atenua a cada linha.

quarta-feira, 26 de março de 2014

adélia prado, amor em forma de mulher

Na última terça-feira, dia 24 de Março de 2014, a romancista, novelista e poeta Adélia Prado participou do programa Roda Viva, da TV Cultura. A entrevista foi demais. Incrível. E todo mundo devia assistir.

Na banca: Augusto Nunes (o de sempre), Ana Weiss (jornalista cultural da revista IstoÉ), Rosélia Aguiar (biógrafa e jornalista literária), Fabrício Corsaletti (colunista do Folha de SP e poeta - autor do lindíssimo poema "Esquimó"), Paulo Werneck (curador da FLIP e editor da Cosac Naify e da Cia das Letras) e Ubiratã Brasil (jornalista do Estado de SP).

"Não acredito que a tristeza seja o motor da poesia. Uma pessoa não escreve poesia porque é triste, ou porque é alegre. A poesia vem de um outro lugar que inclui tristeza e alegria. Mas essa não é a condição pra escrever nenhuma obra, porque nenhuma obra, ainda que nascida da tristeza, por ser poética - por ser arte -, é bela: e a beleza é alegria pura."




Adélia Prado, sim senhor! God save the queen of brazilian poetry! ;)

domingo, 16 de março de 2014

pitaco #22 - clarice lispector

Nome: Perto do Coração Selvagem
Ano: 1943
De quem: Clarice Lispector

Ao citar um livro que li da Clarice, caio na tentação (e acabei de ceder à ela) de não nomeá-la no conjunto nome-sobrenome. Isso, porque "Clarice Lispector" soa não mais como nome da autora, mas como uma nominação para 70% das citações que viajam internet afora.


Apesar disso, a aventura de tentar citá-la, descrevê-la ou explicar o enredo de seus livros é ainda maior do que a tentação de chamá-la apenas de "Clarice". Em "Perto do Coração Selvagem", nos traz pra dentro da mente e da alma de Joana, uma menina que, no início do livro, causa estranhamento por sua mania incomum de cansar de brincar e criar poesias.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

post especial: caio fernando abreu (e por que você deveria lê-lo)

Creio que a literatura, assim como toda forma de arte, serve pra nos fazer respirar ares diferentes por entre nossa própria mente. De uma, de outra ou de todas formas, usamos, constantemente, os livros pra fugirmos de alguma coisa. E foi em uma dessas fugas que encontrei Caio.

Caio que, na época, foi um trabalho da escola. Sobre a seguinte discussão: existe o pós-modernismo? Se sim, o que foi e quem se enquadra nas características?

Fui pessimamente mal na tentativa de discutir estas questões. Sou péssima em tentar teorizar o sentimento - seja ele qual for. Li Caio pra esta pesquisa, mas me esqueci de ler com os olhos de estudante depois de três linhas. Descobrir que ele havia morrido também foi outro martírio a parte - sobretudo porque ele morreu no ano que nasci.

Pois bem, aqui vai: 9 (porque 18 vai exigir muitas linhas) razões pra você lamentar os 18 anos sem Caio Fernando de Abreu.

1_ Ele foi amigo e inspirou pessoas como Adélia Prado, Ana Cristina Cesar e Cazuza. Adélia, que ele lia quando estava triste (hábito que eu adquiri por osmose); Ana, cuja morte foi chorada inúmeras vezes antes de acontecer, de fato; Cazuza, que o inspirou e foi inspirado por ele, num meio-que-romance que nunca foi muito certificado por nenhum dos dois - nem negado.

2_ "Hoje quero escrever qualquer coisa tão iluminada e otimista que, logo depois de ler, você sinta como uma descarga de adrenalina por todo o corpo, uma urgência inadiável de ser feliz. Ser feliz agora, já, imediatamente. E saia correndo para dar aquele telefonema, marcar um encontro, armar um jantar, quem sabe um beijo; para comprar aquela passagem de avião, embarcar hoje mesmo para Nova York, Paris, Hononulu. Tão revigorado e seguro – depois de me ler – que nada, absolutamente nada, dará errado: ela (ou ele) atenderá com prazer (em todos os sentidos) ao seu chamado, haverá saldo no banco para a passagem e muitos dólares. Tudo se organizará rápida e meio magicamente, como se todos os astros e todos os deuses só esperassem por um momento seu para derramar sobre sua cabeça, digamos, uma cornucópia de bem-venturanças." (em uma crônica de jornal)

3_ Olha essa carinha, gente.



4_  "O Brasil não precisa de escritores, o Brasil precisa de arroz e feijão."


5_ "Fique bem, please. Paciência — é preciso ter infinita paciência. Olhar meigo para tudo & todos. Humildade, decência, recato & pudor. A um passo da santidade." (trecho de uma carta, contida no livro "Cartas")

6_ “Não quero lembrar. Faz mal lembrar das coisas que foram e não voltam. No começo fiquei com raiva, achei que ela não pensou em mais ninguém quando desapareceu. Só nela mesma. Mas a gente nunca pode julgar o que acontece dentro dos outros. Ela queria outra coisa” (trecho de "Onde Andará Dulce Veiga", que falei aqui)

7_ "e enquanto falas e me enredas e me envolves e me fascinas com tua voz monocórdia e sempre baixa, de estranho acento estrangeiro, penso sempre que o mar não é esse denso escuro que me contas, sem palmeiras nem ilhas nem baías nem gaivotas, mas um outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde é sempre verão e as emoções limpas como as areias que pisamos, não sabes desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, faminta, as pequenas-esperanças,mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão enredados que seria impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem acaba nem assim nem agora nem aqui ......................................................................................." (trecho do conto "à beira do mar aberto", do livro "Os Dragões Não Conhecem o Paraíso")

8_ “Daquele tempo nem tão distante, daqueles dias que até hoje duram às vezes duas, às vezes duzentas horas, restou esta sensação de que, como eles, também me vou tombando rápido dentro da boca de um vulcão aberto sem fôlego nem tempo para repetir como numa justificativa, ou oração, ou mantra, enquanto caio sem salvação no fogo que é verdade, que si, que no, que nadie puede mismo vivir sin amor.” (metâmero de "Ovelhas Negras")

9_ 



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

trecho: alcione araújo


A única coisa que tem é a arte de cantar que Deus deu. Mas nem sei se isso é profissão. Porque arte, o Senhor sabe, além da beleza, não serve para nada. Também não se ganha quase nada, meu Cristo. São palmas e palmas, mas fazer o que com as palmas? Palma, se hoje tem, amanhã não tem. Nem sei por que as pessoas metem na cabeça de ser artista. Sabe, meu Cristo, eu tenho medo do futuro. O tempo vai passando, se hoje está difícil, amanhã o que vai sobrar? Enquanto esse carro está andando, dá a impressão de que alguma coisa boa pode acontecer na próxima cidade, na próxima semana, no próximo mês. Com o carro andando, há um resto de esperança. É quase nada, mas com ela a gente vai vivendo. Porque, no fundo, a gente acredita que, ao virar a próxima curva, tudo vai ser diferente, o mundo vai ser melhor. mas depois de um acurva vem outra curva, e em cada cidade que a gente chega tudo é igual às outras que estivemos. A gente roda, roda, e o mundo é sempre igual. Uma hora dessas isso vai parar de andar. O que vai sobrar de tudo isso?

Trecho de "Pássaros de Voo Curto", do Alcione Araújo.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

poesia: cecília meireles

Desamparo

Digo-te que podes ficar de olhos fechados sobre o meu peito,
porque uma ondulação maternal de onda eterna
te levará na exata direção do mundo humano.

Mas no equilíbrio do silêncio,
no tempo sem cor e sem número,
pergunta a mim mesmo o lábio do meu pensamento:

quem é que me leva a mim,
que peito nutre a duração desta presença,
que música embala a minha música que te embala,
a que oceano se prende e desprende
a onda da minha vida, em que estás como rosa ou barco...?








Poema de Cecília Meireles, que morreu em 1964, no Rio de Janeiro, onde nasceu. 



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

pitaco #18 - luiz felipe pondé

Livro: Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - Ensaio de Ironia
Ano: 2012
De quem: Luiz Felipe Pondé

Eu não tinha nada contra o autor, mas, depois de ler este livro, não ser (nem parecer) com ele se tornou uma das minhas metas principais de vida.


Falando desse jeito, dou a entender que é um livro ruim. Aqui está minha ressalva: não é. Não somente. É um livro que precisa ser lido com cuidado, analisado pelas entrelinhas e estudado com coerência, para não se deixar cair nos argumentos muito bem estruturados, mas completamente preconceituosos dentro de suas tentativas de corretices (de correto rs). 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

pitaco #17 - lygia fagundes telles

Livro: O Segredo e Outras Histórias de Descoberta
Ano: 2012
De quem: Lygia Fagundes Telles

Não sei falar sobre livros que gosto. Não sei falar sobre livros de contos. Este foi um livro de contos que gostei.

Os 5 contos foram escritos sob a mesma ótica de crianças descobrindo coisas novas. A perspectiva de descoberta é sempre difícil de descrever, mas a Lygia o faz de uma forma tão leve que, em alguns momentos, me perguntei até onde aquilo não havia sido presenciado por ela.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

pitaco #16 - ana cristina cesar

Livro: Poética
Ano: 2013
De quem: Ana Cristina Cesar

Ana C. vivia de palavras. Sua construção poética é tão pessoal que eu tive a impressão de que, ao lê-la, seus amigos sentiriam algum tipo de incômodo por saberem tão fundo de alguém com quem conversam cotidianamente.


No decorrer do livro, percebi que me enganei: devia ser impossível "conversar cotidianamente" com Ana Cristina Cesar.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

pitaco #14 - rubem alves

Livro: O que é religião (Coleção Primeiros Passos)
Ano: 1984
De quem: Rubem Alves

* clique em "mais informações" para assistir ao vídeo sobre este livro.

Este foi o segundo livro que escolhi para a maratona literária. Só o coloquei na lista, porque os livros desta coleção sempre me pareceram rasos (apesar de ser o tipo de leitura que sempre parece inédita, mesmo na sétima releitura). Não foi o caso deste livro: ou sei pouco sobre religião, ou sei mais do que imagino sobre os outros assuntos.



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

pitaco #6 - mario quintana

Livro: 80 anos de Poesia
De quem: Mario Quintana
Ano (1ª reimpressão - Homenagem ao Centenário de Mario): 2006

Pra falar de poesia, sou suspeita. Suspiro, amo e vivo poesia. Concordo em gênero e grau com o grande Leminski, que diz: "O poeta se define, sobretudo, pela capacidade de criar beleza com linguagem".

E Mario Quintana é um grande poeta.

Nascido em 1906, este velhinho simpático tem a cara do avô rabugento que, na mesa do almoço de domingo, depois de perguntar sobre amores, conta a história da vida inteira e deixa os netos com vontade de ser igual.